Antes de implementar IA, responda esta pergunta.
Citizen development é o pré-requisito que o padrão de IA do PMI não menciona — e as organizações que pularam esta etapa já estão pagando o preço.
Em 2019, o Gartner fez uma previsão que parecia audaciosa: até 2024, pelo menos 65% de todas as novas aplicações de negócio seriam criadas com plataformas de alta produtividade — low-code, no-code, citizen development. A previsão foi conservadora. Em 2025, esse número já é de 70% das novas aplicações enterprise, segundo o próprio Gartner. Citizen developers — profissionais de negócio que criam soluções digitais sem depender do TI formal — devem superar developers profissionais na proporção de 4 para 1 até 2026.
No mesmo período, o PMI publicou, em junho de 2026, o primeiro padrão global de inteligência artificial para gestão de portfólios, programas e projetos. 243 páginas, 8 princípios, 5 domínios de performance. Um marco real para a profissão.
Aqui está o paradoxo: apenas 4% das empresas geram valor substancial com IA (BCG, 2024), apesar de 88% terem deployado alguma forma de IA (McKinsey, 2025). E apenas 6% dos trabalhadores acreditam que sua empresa está progredindo bem com IA (Deloitte, 2025).
Muita plataforma. Pouco valor sistêmico. Por quê?
A resposta, contra-intuitiva para quem está focado no debate de IA, está em algo que aconteceu antes — entre 2018 e 2024. Organizações que construíram governança de citizen development nesse período chegaram em 2025 com algo que o PMI AI Standard pressupõe mas não constrói: a arquitetura organizacional para que IA funcione. As que pularam essa etapa estão tentando implementar o standard sobre uma fundação que não existe.
Este artigo examina a evidência desta tese, rastreia a evolução dos dois frameworks PMI que documentam essa trajetória, e propõe como avaliar em que ponto sua organização está nessa curva.
TL;DR
Citizen development governance não é antecessor da IA — é pré-requisito arquitetural. Organizações que implementaram governança de citizen dev entre 2018 e 2024 construíram as três condições que o PMI AI Standard pressupõe mas não cria: coordenação horizontal (S2), cultura de experimentação (hyper SDLC) e IT como habilitador.
A Microsoft confirmou empiricamente. O Copilot Studio — plataforma de governança de AI agents — usa a mesma arquitetura, modelo de segurança e políticas de dados do Power Apps e Power Automate. Governance de IA é uma extensão da governance de citizen dev, não um sistema separado. Organizações que não têm o primeiro precisam construir as duas camadas simultaneamente.
O PMI AI Standard é política de identidade, não guia de arquitetura. Ele define o quê fazer com IA em projetos. Não verifica se a organização tem a estrutura para fazer. Esta é a lacuna central — e o BoK de Citizen Development do PMI (2020) é o documento que constrói o que o standard pressupõe.
Os números confirmam a divergência. BCG: 4% das empresas geram valor real com IA. University of Galway: organizações com citizen development amplo têm “digital agility” consideravelmente maior. Forrester: 83% dos líderes seniores implementam ou planejam citizen development. A sobreposição não é coincidência.
Hyper SDLC é a capacidade mais subestimada. Citizen development treina organizações a aprender sobre o problema e sobre a solução simultaneamente — experimentar em larga escala, iterar sem especificação completa, descobrir o correto enquanto constrói. Esta é exatamente a competência que projetos de IA demandam. E que planos de implementação linear não desenvolvem.
Figura 1 · A evolução em três atos: da bagunça ao padrão.
Linha do tempo 2018–2026: como citizen development governance pavimentou o caminho para AI governance — e o que separa as organizações que percorreram essa trajetória das que tentaram pular etapas. Fontes: PMI Citizen Developer BoK (2020); PMI AI Standard (2026); Gartner Forecast (2025); Microsoft Build (2025); BCG AI Value Survey (2024). Elaboração própria (Trentim, 2026).
Ato 1 (2018–2020): o problema que ninguém queria nomear
Antes de 2018, o gap entre capacidade de TI e demanda do negócio era tratado como problema de priorização: o TI estava sobrecarregado, o negócio precisava de soluções digitais, e a fila de projetos crescia enquanto as janelas de oportunidade se fechavam. A resposta institucional era contratar mais desenvolvedores ou terceirizar. Nenhuma das duas resolvia a raiz.
A raiz era mais simples e mais difícil: quem conhece o problema — o analista financeiro, o coordenador de operações, o gestor de relacionamento — não tinha instrumentos para construir a solução. Quem tinha os instrumentos — o TI — não tinha o contexto do problema. O resultado era o que os relatórios de mercado chamavam de “shadow IT”: soluções construídas fora do TI formal, sem documentação, sem governança, sem escalabilidade. Úteis localmente, invisíveis sistemicamente.
A FTI Consulting, em pesquisa que embasou o PMI Citizen Developer BoK, documentou: 79% dos líderes de TI diziam-se pressionados pelo backlog crescente. 95% reconheciam os riscos do shadow IT — mas apenas uma fração tinha instrumento estruturado para lidar com ele. O gap era real. A resposta ainda não era.
“Shadow IT does bring value to the organization; first and foremost, it is a solution for an unaddressed need.”— PMI Citizen Developer BoK, 2020, p. 31
Isso é um ponto que os relatórios de compliance raramente fazem: shadow IT não é patologia — é sinal de energia organizacional sem canal adequado. S1, na terminologia de Stafford Beer: as unidades operacionais têm variedade suficiente para identificar e tentar resolver problemas locais. O que falta é S2 — o mecanismo de coordenação que permite que essa energia circule de forma visível, segura e reutilizável. Shadow IT é S1 sem S2. Não é falta de competência. É ausência de infraestrutura.
Ato 2 (2020–2024): o que citizen development governance realmente constrói
O PMI Citizen Developer BoK, publicado em 2020 por uma equipe da FTI Consulting liderada por Duncan, Jamnadass e Magimay, foi o primeiro framework estruturado da principal associação de gestão de projetos do mundo para o fenômeno citizen development. Mais importante do que o que prescrevia era o problema que nomeava com precisão: o gap TI-negócio não seria resolvido por mais projetos de TI — seria resolvido por mudar quem pode criar soluções digitais e sob quais condições.
O framework define um modelo de maturidade de cinco estágios: Discovery, Experimentation, Adoption, Scaling, Innovating. Cada estágio tem uma crise estrutural específica que a organização precisa superar para avançar. A progressão não é linear de competência técnica — é progressão de governança. O que muda entre os estágios é a qualidade da coordenação, da responsabilização e da cultura de ownership.
O Estágio 4 — Scaling — revela um limite que o BoK documenta com precisão: quando uma organização ultrapassa aproximadamente 150 citizen developers ativos, a coordenação informal colapsa. Este é o limiar de Dunbar aplicado a citizen development: acima dessa escala, a coordenação que dependia de pessoas-chave (os “brokers” de Robert Burt — indivíduos que conectavam silos organizacionais por relacionamento pessoal) se torna frágil demais. Um Competency Center formal, com papéis definidos de Strategist, Architect, Practitioner e Community Manager, não é opcional nesse ponto. É a infraestrutura que substitui os brokers individuais.
Organizações que chegaram ao Estágio 4–5 do modelo PMI de citizen development construíram, ao longo desse processo, três capacidades que são invisíveis no certificado — mas determinantes para o que vem depois:
Capacidade 1 · Coordenação horizontal projetada (S2)
Um Competency Center de citizen development é, funcionalmente, um mecanismo de coordenação anti-oscilatória. No Viable System Model de Stafford Beer, S2 é o sistema que previne que unidades operacionais independentes entrem em conflito de prioridade ou produzam duplicações invisíveis. Antes do Competency Center, o TI era S3 (controle) sem S2 (coordenação): aprovava ou reprovava, mas não coordenava. Com o CC, a organização passa a ter um mecanismo que permite que soluções de uma área sejam visíveis e reutilizáveis por outras — sem escalar para a hierarquia.
Isso é exatamente o que o PMI AI Standard pressupõe quando descreve seu princípio de Stakeholder Engagement: que informação e resultados de IA fluam horizontalmente entre funções. Sem S2, esse fluxo não acontece — independentemente de quão bom seja o modelo de linguagem ou quão detalhado seja o standard.
Capacidade 2 · Hyper SDLC — a experimentação como competência organizacional
O ciclo de desenvolvimento de citizen development é estruturalmente diferente do desenvolvimento tradicional de TI. Não há uma especificação completa antes do início. O processo é de descoberta: você aprende sobre o problema e sobre a solução ao mesmo tempo, iterando enquanto constrói. O BoK formaliza isso em três caminhos de desenvolvimento baseados em risco e complexidade — Fast Track, Assisted e IT Delivery — cada um com grau de governança proporcional à variabilidade do problema.
Isso é, em termos de W. Ross Ashby, variedade regulatória proporcional à variedade do ambiente: não o mesmo processo para todos os problemas, mas o processo certo para cada nível de incerteza. Organizações que internalizaram essa lógica durante anos de citizen development desenvolveram o que chamo de hyper SDLC — a capacidade de experimentar em larga escala com alta velocidade, descobrir o que não funciona antes de escalar o que funciona, e encerrar iniciativas sem culpa quando os dados apontam para outra direção.
Esta competência — que parece óbvia quando nomeada — é radicalmente rara. A maioria dos processos organizacionais foram desenhados para executar decisões já tomadas, não para aprender enquanto decide. Citizen development treina a organização para o segundo modo. E projetos de IA — que raramente têm especificação completa na aprovação — demandam exatamente esse modo.
Capacidade 3 · IT como habilitador, não controlador
A transição mais difícil do modelo de citizen development não é técnica — é cultural. Ela exige que o TI mude de função: de porteiro (quem aprova ou reprava soluções) para habilitador (quem cria o envelope dentro do qual o negócio constrói com autonomia). O BoK resume isso em uma formulação que é, em termos de Ashby, uma lei operacional: “IT governance needs to be as strict as necessary, but at the same time as light-touch as possible.”
Organizações que interiorizaram essa tensão — construindo política clara sem burocracia sufocante — chegam ao debate de AI governance com um ativo que não consta em nenhuma apresentação de transformação digital: a confiança mútua entre TI e negócio para co-criar. Sem essa confiança, a implementação de qualquer standard — de IA ou de qualquer outra coisa — vira exercício de compliance unilateral, não de mudança organizacional real.
Figura 2 · O que citizen development constrói versus o que o PMI AI Standard pressupõe.
Mapeamento das três capacidades construídas por citizen development governance (coluna esquerda) com os princípios e domínios do PMI AI Standard (2026) que as pressupõem (coluna direita) — e o gap para organizações que pularam a etapa. Fontes: PMI Citizen Developer BoK (2020); PMI AI Standard (2026); Beer, S., Diagnosing the System (1985); Ashby, W.R., Introduction to Cybernetics (1956). Elaboração própria (Trentim, 2026).
Ato 3 (2025–2026): a prova empírica que ninguém esperava do lugar mais óbvio
O argumento de que citizen development é pré-requisito para AI governance poderia ser tratado como tese teórica — se não fosse pelo que a Microsoft anunciou em maio de 2026, durante o Build.
O Copilot Studio — a plataforma da Microsoft para criação e governança de AI agents — foi construído sobre exatamente a mesma arquitetura de plataforma, modelo de segurança, estrutura de ambientes e políticas de dados do Power Apps e Power Automate. São as mesmas ferramentas de citizen development, agora extendidas para AI agents. A Microsoft declarou explicitamente: “IT administrators can extend existing Power Platform governance practices to cover AI agents without learning separate frameworks.”
Traduzido para o contexto deste artigo: a governança de AI agents é uma extensão da governança de citizen development, não um sistema separado. Organizações que construíram governance de Power Platform entre 2018 e 2024 — políticas de dados, Competency Centers, processos de Fast Track / Assisted / IT Delivery — chegaram em 2026 com a infraestrutura pronta para escalar AI agents. As que não construíram precisam construir as duas camadas simultaneamente: a fundação de citizen dev e o teto de AI governance.
O Copilot Studio já é usado por mais de 230.000 organizações, incluindo 90% das empresas da Fortune 500 (Microsoft FY25 Q3). Mas qual dessas 230.000 organizações está gerando valor sistêmico — e qual está criando o equivalente digital do shadow IT de 2018, agora em forma de AI agents não governados? A resposta, provavelmente, correlaciona com maturidade de citizen development governance.
A Microsoft não planejou provar o argumento deste artigo — mas provou. Ao construir AI governance como extensão de citizen dev governance, a empresa mais bem posicionada para observar como organizações usam plataformas digitais em escala revelou que a sequência não é opcional. É arquitetural.
O PMI AI Standard (2026): o que é — e o que deliberadamente não é
O PMI publicou em junho de 2026 o primeiro standard global de inteligência artificial para gestão de portfólios, programas e projetos. Li o documento integralmente — 243 páginas, 8 princípios, 5 domínios de performance. A escolha central é deliberada e intelectualmente correta: o standard é um documento de princípios, não de processos.
O documento afirma: “While AI continues to evolve rapidly, this standard emphasizes enduring principles and governance frameworks that support responsible, adaptive use over time.” E: “The standard does not prescribe specific tools or implementations. Instead, it adopts a technology-agnostic approach.”
Isso significa que o standard não vai envelhecer junto com os modelos de IA de 2026. É uma “política de identidade” — na terminologia de Stafford Beer, um documento de S5: define o envelope de valores dentro do qual a organização deve operar em relação a IA. Não é S3 (controle operacional). É a constituição da IA em gestão de projetos.
O mapeamento dos 8 princípios ao Viable System Model é revelador: Strategic Value = S5 propósito; Risk = S3* canal de auditoria (Human-in-the-Loop como mecanismo algedônico); Governance & Compliance = S3 + S5 limite; People & Culture = S2 informal; Ethics = S5 identidade; Stakeholder Engagement = S2 interface ambiental; Optimization & Innovation = S4; Data Quality = S1 substrato.
Lidos em conjunto, os 8 princípios pressupõem um sistema viável funcionando. Se S2 está ausente — se não há coordenação projetada entre unidades —, o standard se torna decoração burocrática. Cada unidade vai interpretar os princípios de forma diferente, sem mecanismo para alinhar as interpretações. O princípio de People & Culture vai produzir treinamentos por silo. O princípio de Stakeholder Engagement vai produzir reuniões adicionais. O princípio de Optimization & Innovation vai produzir relatórios de inovação que ninguém usa.
O standard não verifica se esses pressupostos estão presentes. Esta é a lacuna central — e é exatamente o que o BoK de Citizen Development constrói.
Figura 3 · Os dois frameworks PMI em confronto: o que cada um faz e onde um começa onde o outro termina.
Comparação estrutural entre o PMI Citizen Developer BoK (2020) e o PMI AI Standard (2026): foco, função VSM, o que constrói, o que pressupõe, audiência-alvo e posição no ciclo de maturidade organizacional. Fontes: PMI Citizen Developer BoK (Duncan, Jamnadass, Magimay / FTI Consulting, 2020); PMI Standard for AI in Portfolio, Program, and Project Management (2026). Elaboração própria (Trentim, 2026).
O contraditório que fortalece o argumento
A objeção mais inteligente a esta tese é direta: algumas organizações implementaram IA com sucesso sem jamais ter passado por um programa formal de citizen development. Goldman Sachs, grandes bancos de varejo com squads de ML dedicados, startups de tecnologia — nenhum deles tem um Competency Center de citizen dev. E algumas delas estão nos 4% que geram valor real com IA.
A objeção é válida — e não refuta o argumento central. Refina-o.
O que essas organizações têm em comum não é citizen development como programa. É o que citizen development constrói como resultado: coordenação horizontal funcional (equipes de ML que falam com as áreas de negócio sem escalar para o C-Level), cultura de experimentação estruturada (sprints de descoberta antes de compromissos de escala), e TI como habilitador (times técnicos co-criando com o negócio, não apenas recebendo requisitos). Elas chegaram a essas condições por outros caminhos — DevOps maduro, metodologias ágeis bem-implementadas, cultura de produto forte.
O argumento não é que citizen development é o único caminho para essas capacidades. É que, para a maioria das organizações que não nasceu como empresa de tecnologia — e a maioria das organizações que usam o PMI como referência não nasceu assim —, citizen development governance é o caminho mais direto e documentado para construir as condições que o PMI AI Standard pressupõe.
A University of Galway documentou empiricamente: organizações que adotam citizen development de forma ampla têm “digital agility” consideravelmente maior do que as que não adotam. Casos como BASF (com mais de 10.000 citizen developers ativos), Shell e Volvo confirmam que a escala de citizen development e a maturidade de AI governance tendem a coexistir — não por coincidência, mas por causalidade arquitetural.
O que os dados do mercado confirmam
A Forrester, em seu relatório de previsões para automação em 2025, documentou algo que conecta diretamente os dois períodos desta análise: citizen developers começarão a construir aplicações com GenAI integrado. A evolução não é ruptura — é continuidade. Citizen developers que aprenderam a criar fluxos no Power Automate agora estão usando Copilot Studio para adicionar inteligência a esses fluxos. A competência se compõe.
O mesmo relatório Forrester aponta um dado que define o desafio para organizações que não fizeram o percurso: mais da metade dos funcionários têm baixo AIQ — compreensão limitada, baixa confiança e consciência ética insuficiente sobre IA. Este não é um problema de treinamento técnico. É um problema de letramento digital que citizen development resolve progressivamente: ao longo de anos de criação de soluções simples, as pessoas desenvolvem intuição sobre o que a tecnologia pode e não pode fazer, sobre quais dados são sensíveis, sobre quando uma automação precisa de supervisão humana.
O Forrester Developer Survey 2024 mostra que 83% dos líderes seniores de tecnologia relatam que suas organizações estão implementando ou planejando implementar estratégias de citizen development. Mas “planejando implementar” em 2024 significa chegando em 2026 sem a maturidade necessária para implementar o AI Standard da forma como ele foi desenhado.
Figura 4 · Maturidade de citizen development × AI readiness: a matriz de posicionamento
Quadrante 2×2 posicionando tipos de organização pela maturidade de citizen dev governance (eixo horizontal) e pela maturidade de AI governance atual (eixo vertical) — com implicações estratégicas distintas para cada quadrante. Fontes: BCG AI Value Survey (2024); Forrester Developer Survey (2024); Forrester Future of Work Survey (2024); University of Galway, digital agility research (2024). Elaboração própria (Trentim, 2026).
O que dez anos de implementação ensinaram
Entre 2014 e 2024, a ModernPMO — empresa que fundei e que operou como Microsoft Gold Partner durante todo esse período — implementou citizen development em dezenas de organizações brasileiras e latinas. Fui Microsoft Regional Director e Microsoft MVP por uma década, envolvido diretamente na evolução do ecossistema de Power Platform desde quando se chamava PowerApps e só tinha alguns conectores básicos.
O que vejo, agora, nessas organizações é uma divergência que não tem paralelo em nenhum outro período da minha trajetória profissional: empresas que construíram a governança de citizen development — que passaram pelas crises do limiar de Dunbar, que formaram Competency Centers, que forçaram a transição do TI de controlador para habilitador — chegam em 2026 com um vocabulário, uma cultura e uma infraestrutura que as posiciona para absorver o PMI AI Standard como evolução natural. Já sabem coordenar sem centralizar. Já sabem experimentar sem perder governança. Já sabem que a IA é mais um nível da mesma transformação que começou com o Power Automate e o Power Apps.
As organizações que não fizeram esse percurso estão tentando absorver AI governance sem ter a musculatura que ele exige. Não é que sejam incompetentes — é que estão tentando correr sem ter treinado a marcha. O AI Standard é real e necessário. Mas ele pressupõe um organismo que a maioria das organizações ainda não é.
A boa notícia: não é tarde. Mas a sequência importa.
Três diagnósticos para saber onde você está
Antes de qualquer decisão de implementação do PMI AI Standard, três diagnósticos operacionais revelam a prontidão estrutural da organização. Eles não medem tecnologia — medem arquitetura organizacional.
Diagnóstico 1 · Coordenação (S2): “Quando duas áreas de negócio têm conflito de prioridade sobre uma iniciativa digital — quem resolve, em quanto tempo, e com qual instrumento formal?” Se a resposta envolve escalar para o C-Level ou depende do relacionamento pessoal entre os líderes, S2 está frágil. Organizações com Competency Center maduro de citizen dev resolvem esse conflito no nível do CC, com critérios explícitos, sem escalar. Se você não tem esse mecanismo para citizen dev, não tem para AI agents.
Diagnóstico 2 · Cultura de experimentação (hyper SDLC): “Quando um projeto de IA não entrega o resultado esperado em 90 dias, o que acontece com a equipe que o liderou?” Se a resposta é penalização ou constrangimento institucional, a organização não tem cultura de experimentação — tem cultura de aprovação prévia e execução sem erro. Citizen development maduro produz o oposto: a falha rápida e barata é o custo de aprender o problema certo. Sem esse metabolismo, projetos de IA são aprovados com premissas otimistas e sossinhas até que o custo seja irrecuperável.
Diagnóstico 3 · Posição do TI (S3 habilitador vs. controlador): “O TI da organização é o primeiro interlocutor quando uma área de negócio quer criar uma solução digital — ou é o último?” Se o TI ainda funciona como porteiro — aprovando ou reprovando depois de especificação completa —, a organização não fez a transição que citizen development exige. Sem ela, AI governance vai reproduzir o mesmo modelo: um padrão que ninguém no negócio entende, controlado por um TI que não tem o contexto de negócio para aplicá-lo com inteligência.
Esses três diagnósticos não têm resposta certa ou errada — têm resposta honesta ou desonesta. A organização que sabe onde está tem um mapa para onde precisa ir. A que não sabe vai descobrir o gap no momento mais custoso: durante a implementação.
Para boards: a pergunta que o AI Standard não faz — mas que deveria ser a primeira
O PMI AI Standard define extensamente o que boards devem verificar sobre iniciativas de IA: alinhamento estratégico, gestão de riscos, compliance ético, envolvimento de stakeholders. É um checklist necessário — e insuficiente.
A pergunta que o standard não faz — e que deveria preceder qualquer outra — é de arquitetura, não de compliance:
“A organização tem a infraestrutura de coordenação horizontal, a cultura de experimentação e a relação habilitadora entre TI e negócio que permitem que a implementação do standard gere o que ele promete — ou estamos aprovando um standard cujos pressupostos ainda não existem?”
Um board que aprova “implementar o PMI AI Standard” sem verificar essa condição está cometendo o mesmo erro que aprova uma estratégia de expansão internacional sem verificar se a organização tem a capacidade operacional de absorver novos mercados. A estratégia pode estar certa. A condição habilitadora pode estar ausente. O resultado é o esperado: compliance documentado, valor não realizado.
A pergunta de viabilidade — “a organização tem a arquitetura para que o standard funcione?” — é exatamente o tipo de oversight que separa boards que exercem função estratégica de boards que exercem função burocrática. E é a pergunta que um board bem assessorado deveria fazer antes da aprovação, não depois da primeira auditoria.
A janela que está se fechando — e o que fazer antes que feche
O timing deste artigo não é acidental. O PMI AI Standard é de junho de 2026. Nos próximos 12 a 18 meses, haverá uma onda de implementação — organizações que vão adotar o standard porque é o PMI, porque o board pediu, porque apareceu na pauta de uma conferência. Algumas vão gerar valor. Muitas vão gerar documentação.
A diferença entre os dois grupos raramente será a qualidade do plano de implementação do standard. Será a presença ou ausência das condições que o standard pressupõe. E construir essas condições — S2 funcional, hyper SDLC como competência organizacional, IT como habilitador — leva tempo. O Competency Center de citizen development não se monta em um trimestre. A transição cultural do TI não acontece por decreto.
Organizações que iniciam agora o percurso de citizen development governance — ou que revisitam e fortalecem o que construíram parcialmente — têm 18 meses para construir a fundação antes que a onda de implementação do AI Standard revele quem estava pronto e quem estava apenas conformado.
“Only variety can absorb variety.”— W. Ross Ashby, Introduction to Cybernetics, 1956, p. 207. O princípio que explica por que padrões sofisticados em organizações mal-desenhadas produzem compliance burocrático — não transformação.
O PMI AI Standard tem variedade suficiente para orientar organizações complexas em ambientes de IA em rápida evolução. Mas a organização que o implementa também precisa ter variedade suficiente para absorver o que o standard orienta. Citizen development governance é o mecanismo mais documentado e estruturado para construir essa variedade organizacional — para a maioria das organizações que não nasceram como empresas de tecnologia.
A próxima edição desta série introduzirá o modelo que estou desenvolvendo para integrar esses dois frameworks em uma arquitetura de execução estratégica para a próxima geração de escritórios de projetos. O nome ainda não é definitivo. A evidência que o sustenta está neste artigo e no anterior.
Figura 5 · O roteiro de prontidão: da governança de citizen dev ao PMI AI Standard — o que construir, em que sequência, com qual indicador de conclusão
Roadmap prático em três fases para organizações que querem implementar o PMI AI Standard sobre base sólida de citizen development governance — com indicadores objetivos de conclusão de cada fase antes de avançar para a seguinte. Fontes: PMI Citizen Developer BoK (2020); PMI AI Standard (2026); Microsoft Power Platform governance framework (Build 2025); Beer, S., Diagnosing the System (1985). Elaboração própria (Trentim, 2026).
Palestras e workshops para organizações
Os temas deste artigo — citizen development governance, AI readiness organizacional, implementação estruturada do PMI AI Standard — fazem parte de um programa de trabalho que conduzo com times de liderança, PMOs e conselhos de administração. A sessão mais frequentemente solicitada é um diagnóstico prático dos três indicadores descritos acima, com plano de ação para os próximos 90 dias.
Próximas disponibilidades: agosto e setembro de 2026. Para organizações interessadas: mario@trentim.com
Uma pergunta para fechar
Sua organização passou por uma implementação de citizen development governance — com Competency Center, políticas de IT formalizadas e modelo de maturidade avaliado? Ou a transformação digital ficou no nível das ferramentas, sem a governança que as torna sistêmicas?
A resposta a essa pergunta, mais do que qualquer plano de IA que você tenha aprovado, vai determinar sua curva de AI governance nos próximos 24 meses. Se tiver um caso concreto — de um lado ou do outro — a discussão nos comentários vai ser mais útil do que qualquer framework.
Próxima edição · sex 11/jul/2026 · PMO 4.0: o modelo para a próxima geração de escritórios de execução estratégica
Se o W26 documentou o que está errado com o PMO atual — e este artigo documentou a fundação tecnológica que o PMO do futuro precisa ter —, o próximo passo é o modelo. O que é o PMO 4.0, o que o diferencia de um VMO rebatizado, e quais são as condições organizacionais para que a transição não seja só de nome.
Mario H. Trentim
trentim.com · Estratégia em Ação · Board Member, PMI Board of Directors 2025–2027 · PhD Candidate ITA · Microsoft Regional Director 2014–2026 · Microsoft MVP 2016–2026 · Keynote Speaker
Mario Trentim é Conselheiro no Board of Directors do PMI (2025–2027). Doutorando em Engenharia Aeronáutica e Mecânica no ITA. Autor de 13 livros e criador de 48 cursos no LinkedIn Learning com mais de 465 mil alunos. Founder da Allevo. Entre 2014 e 2024, liderou a ModernPMO como Microsoft Gold Partner, implementando citizen development em organizações brasileiras e latinas durante toda a evolução do ecossistema Power Platform.
Referências
Ashby, W. R. (1956). Introduction to Cybernetics. Chapman & Hall.
BCG (2024). AI at Scale: Why Only 4% of Companies Capture Substantial Value — and What Sets Them Apart. Boston Consulting Group.
Beer, S. (1985). Diagnosing the System for Organizations. Wiley.
Burt, R. (1992). Structural Holes: The Social Structure of Competition. Harvard University Press.
Deloitte (2025). Global Human Capital Trends 2025. Deloitte Insights.
Duncan, W., Jamnadass, M. & Magimay, L. / FTI Consulting (2020). PMI Citizen Developer Body of Knowledge (beta). Project Management Institute.
Forrester (2024). Developer Survey 2024. Forrester Research.
Forrester (2024). Future of Work Survey 2024. Forrester Research.
Forrester (2025). Predictions 2025: GenAI, Citizen Developers, and Caution Influence Automation. Forrester Research.
Gartner (2019). “By 2024, 65% of application development activity will be low-code.” Gartner Research Note.
Gartner (2025). Forecast Analysis: Low-Code Development Technologies, Worldwide. Gartner.
Greiner, L. (1998). “Evolution and revolution as organizations grow.” Harvard Business Review, 76(3), 55–68.
McKinsey (2025). The State of AI in 2025. McKinsey Global Institute.
Microsoft (2025). “Evolving Power Platform Governance for AI Agents.” Microsoft Power Platform Blog, Microsoft Build 2025.
Microsoft (2025). FY25 Q3 Earnings Release. Copilot Studio: 230k+ organizations, 90% Fortune 500.
PMI — Project Management Institute (2026). The Standard for Artificial Intelligence in Portfolio, Program, and Project Management. 1ª edição.
PMI — Project Management Institute (2025). Pulse of the Profession 2025. PMI.
Rittel, H. W. J. & Webber, M. M. (1973). “Dilemmas in a general theory of planning.” Policy Sciences, 4(2), 155–169.
University of Galway (2024). Research on digital agility and citizen development adoption. [Research referenced in Forrester and industry reports.]
Agradecimento aos pesquisadores do PMI que desenvolveram os dois frameworks em confronto neste artigo — o Citizen Developer BoK de 2020 e o AI Standard de 2026. A lacuna entre eles não é uma crítica ao PMI: é evidência de que o campo evoluiu mais rápido do que qualquer framework único consegue capturar. Nomear a sequência correta é a contribuição que este artigo tenta fazer.








Obrigado, Mario Trentim, pela contribuição e pela clareza ao conectar dois temas que raras vezes são discutidos juntos.
Citizen development ficou ainda mais relevante agora com todas as ferramentas e oportunidades com IA.