Da bolsa de estágio ao Board do PMI: uma trajetória de certificações
Entenda como certificações abriram portas em diferentes etapas da carreira — e por que experiência, resultados e capacidade de entrega foram decisivos para chegar à liderança global do PMI.
Minha trajetória da bolsa de estágio até uma cadeira no Board of Directors do PMI Global passou por certificações em pontos específicos — nunca como objetivo em si, mas como abridoras de porta em momentos em que a experiência ainda não tinha como se provar sozinha. O PMP veio primeiro e abriu convites de trabalho e docência. O IPMA Level-A veio décadas depois, quando já havia entrega de portfólio complexo para validar. Certificação abre a conversa. Entrega é o que mantém você na sala.
O início: aprender fazendo, sem crachá que provasse isso
Toda carreira em gestão de projetos que conheço de perto — inclusive a minha — começa no mesmo lugar: alguém jovem, geralmente numa posição de bolsa de estágio ou cargo júnior, tentando organizar um trabalho que ninguém mais quer organizar. Não existe certificado nesse estágio. Existe a tarefa chata de colocar ordem onde havia caos, e é aí que se forma o instinto de gestão de projetos antes mesmo de existir vocabulário técnico para nomear o que está sendo feito.
O que separa quem fica preso nesse estágio de quem avança não é o certificado — é a disciplina de repetir a entrega com qualidade crescente até que ela vire visível para quem decide promoções e convites. Peter Drucker escreveu que administração é uma prática, não uma ciência: se aprende fazendo, com disciplina, e a credencial formaliza o que a prática já demonstrou. Foi assim que aconteceu comigo. A certificação não criou a competência. Ela deu nome, padrão e portabilidade a uma competência que já estava em construção havia anos.
O PMP como primeira porta formal
Quando finalmente fiz o PMP, o efeito mais imediato não foi um salto de conhecimento técnico — era uma organização e sistematização de coisas que eu já fazia de forma intuitiva, agora com vocabulário comum ao resto do mercado. O efeito mais concreto foi outro: convites. Convites para projetos que antes não chegavam até mim, convites para dar aula, convites para conversas que um currículo sem certificação simplesmente não abria. O PMP funcionou como um filtro de credibilidade que me colocou em salas onde a conversa técnica podia avançar mais rápido, porque a pergunta “esse profissional sabe do que está falando?” já vinha respondida.
Isso não significa que o PMP tenha sido suficiente. Foi necessário, mas não suficiente — o padrão se repete em cada etapa seguinte da trajetória.
A passagem pela Força Aérea: certificação encontra a realidade da organização
Um dos períodos mais formativos da minha carreira foi na Força Aérea Brasileira, à frente de inovação e planejamento estratégico no IAE — o Instituto de Aeronáutica e Espaço. Foi lá que vi de perto o limite prático de qualquer certificação isolada: a unidade não conseguia sequer executar o próprio orçamento dentro do ano fiscal antes de termos estruturado um escritório de projetos funcional. O conhecimento técnico de gestão de projetos já existia disperso entre pessoas competentes. O que faltava era o sistema — processo, governança, cadência de decisão — que transformasse conhecimento individual em capacidade organizacional. Estruturar esse sistema, não qualquer certificado isolado, foi o que resolveu o problema do orçamento não executado.
Essa experiência ficou comigo como princípio: estratégia sem execução é desejo. Certificação individual ajuda a pessoa. Sistema organizacional é o que ajuda a instituição.
Doutorado, docência e a acumulação de credibilidade técnica
As etapas seguintes vieram menos de uma única certificação e mais do acúmulo: os 13 livros publicados, os 48 cursos no LinkedIn Learning que hoje somam mais de 465 mil alunos, a docência formal, e o doutorado em andamento na Engenharia Aeronáutica/Mecânica do ITA. O IPMA Level-A — o nível mais alto da certificação, voltado a quem lidera portfólio e programas complexos em nível sênior — só fez sentido depois de anos de entrega documentável nesse nível de responsabilidade. Não existe atalho para essa certificação específica: ela exige, por desenho, o que a experiência real produz.
O Board do PMI Global
A cadeira no Board of Directors do PMI Global, para o mandato 2025–2027, não veio de nenhuma certificação isolada. Veio da soma: prática técnica desde a bolsa de estágio, certificações nos pontos certos da trajetória, publicação sustentada, docência em escala, e disposição de aparecer com posição técnica clara em fóruns internacionais durante décadas.
Se existe uma lição transferível nessa trajetória inteira, é esta: certificação é ingrediente, não prato pronto. Quem trata certificação como destino final geralmente para de crescer logo depois de tirá-la. Quem trata certificação como uma etapa dentro de uma trajetória de entrega continua subindo.
Limitações e cuidados
Esta é uma trajetória individual, com décadas de acúmulo — não é um roteiro replicável em prazo curto.
Certificação abre conversas, mas não substitui entrega documentada; quem não tem histórico de resultado por trás do certificado sente a lacuna rápido.
Contextos institucionais diferentes (público, privado, multinacional) valorizam certificações de forma desigual — o que funcionou aqui não é garantia universal.
Perguntas frequentes
Vale a pena fazer PMP antes de ter experiência suficiente?
O PMI exige uma quantidade mínima de horas de experiência liderando projetos antes de você poder se inscrever, justamente para evitar isso. A certificação organiza e valida uma prática que já existe — ela não substitui a prática.
Certificação sozinha constrói uma carreira?
Não. Certificação abre a porta da sala — quem fica na sala é decidido pela entrega. Cada certificação nesta trajetória correspondeu a uma mudança de escopo de responsabilidade que já vinha sendo assumida, não o contrário.
Dá para ir de posição operacional a uma cadeira de Board internacional?
Dá, mas não em linha reta e não rápido. Envolve décadas de acúmulo de entrega, publicação, docência e construção de reputação técnica — certificação é um dos insumos desse processo, não o processo inteiro.
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Se o tema de fundo aqui — construir sistemas de execução dentro de uma organização, não só acumular credenciais individuais — interessar além da certificação em si, os cursos no LinkedIn Learning aprofundam essa direção para quem quer ir além do exame.
Mario H. Trentim é membro do Board of Directors do PMI Global (2025–2027), PhD Candidate no ITA e criador do Adapt OS. Autor de 13 livros e instrutor do LinkedIn Learning com mais de 465 mil alunos. trentim.com



