O que aprendi ensinando PMO Governance para executivos na Califórnia
Entenda como ensinar executivos seniores revelou que a boa governança de portfólio depende menos de controle e mais de escolhas, influência e alinhamento estratégico.
Mario Trentim, membro do Board of Directors do PMI Global e Academic Leader do programa Advanced Topics in PMO Governance na California State University Northridge (CSUN), descreve o que mudou na sua compreensão de governança de portfólio depois de ensinar executivos seniores na primeira turma em julho de 2025. Acontece em julho, Northridge, California.
Existe uma diferença entre saber algo e conseguir ensiná-lo. A diferença aparece quando a pessoa na sua frente tem quinze anos de experiência real, um portfólio de projetos ativo, e não tem tempo nem paciência para teoria que não resolve um problema concreto. Foi o que aconteceu na primeira turma do programa Advanced Topics in PMO Governance na California State University Northridge, em julho de 2025.
Eu entrei na sala com um currículo. Saí com um mapa diferente do que eu pensava que sabia.
A primeira turma de julho de 2025
A composição da turma não seguiu o que eu esperava encontrar num programa de executive education em PMO. A maioria dos participantes eram PMO Directors, VPs de projetos e conselheiros com histórico de entrega real — não em organizações pequenas ou em estágio de implantação de PMO, mas em empresas estabelecidas, com portfólios complexos e com PMOs que funcionavam há anos. Vários tinham passado por processos de transformação organizacional. Alguns coordenavam múltiplos portfólios em paralelo.
Não havia ninguém aprendendo o que é um PMO. Havia pessoas com problemas que as certificações padrão não prepararam para resolver.
O resultado foi que o programa que eu havia preparado precisou ser recalibrado em tempo real a partir da segunda manhã. Não porque o conteúdo fosse equivocado — mas porque a profundidade das perguntas que chegavam da turma apontava para lacunas mais específicas e mais sofisticadas do que as que qualquer currículo-padrão cobre.
Isso foi, ao mesmo tempo, o maior desafio e o maior aprendizado da experiência.
A surpresa com o nível de seniority
Seniority técnica não é o mesmo que clareza sobre o problema real. O que surpreendeu na turma não foi a qualidade da experiência dos participantes — era esperada e estava lá. Foi a profundidade dos problemas que chegavam à discussão, e o quanto esses problemas eram distintos do que qualquer material padrão de PMO costuma abordar.
Executivos com vinte anos de carreira, com PMOs estruturados, com equipes treinadas e com processos documentados, tinham um gap específico que reaparecia em variações ao longo de toda a semana: sabiam o status de cada projeto no portfólio, mas não tinham critério claro para decidir qual deveria ser descontinuado.
A habilidade de monitorar projetos estava presente. O que faltava era o sistema de decisão que governa o portfólio — não a execução de projetos individuais, mas a lógica que determina o que entra, o que permanece e o que sai.
Isso é diferente de metodologia. É governança no sentido real do termo.
Sabiam o status de cada projeto. Não tinham critério para dizer qual deveria ser cancelado. Essa frase passou a ser o ponto de entrada de toda a discussão sobre governança.
O insight de sala que mudou a próxima aula
Em algum momento da segunda tarde, um executivo do setor de energia disse algo que ficou: “Meu PMO sabe o status de cada projeto. Mas não temos critério para dizer qual deveria ser cancelado.”
A frase era precisa demais para deixar passar. Não porque revelasse um problema individual daquele executivo — mas porque descreve com exatidão o gap mais comum em PMOs de alto nível que eu encontro, tanto no Brasil quanto no exterior.
O PMO sem critério de saída é um PMO que, por definição, cresce até ficar ingerenciável. Cada projeto aprovado entra no portfólio. Sem critério explícito para descontinuação, o portfólio acumula. O portfólio que acumula dilui recursos. Recursos diluídos comprometem a entrega dos projetos que importam. E, no fim, o PMO perde credibilidade — não por falhar em projetos individuais, mas por ter perdido a capacidade de garantir que o portfólio como um todo está alinhado com a estratégia.
Essa frase — sobre o critério de cancelamento — passou a ser o ponto de entrada de toda a discussão subsequente sobre governança no programa. Não a estrutura de um PMO, não os papéis e responsabilidades, não os processos de reporte — mas o sistema de decisão que está por trás de tudo isso.
O PMI Pulse of the Profession confirma a observação de campo. A função mais crítica do PMO, segundo o Pulse, não é a entrega de projetos individuais — é a capacidade de recomendar descontinuações com base em critérios estratégicos. Poucas organizações chegam a isso. As que chegam têm PMOs que sobrevivem a ciclos de transformação e a mudanças de liderança. As que não chegam têm PMOs que são percebidos como centros de custo e overhead burocrático.
A diferença está no sistema de decisão, não no processo de acompanhamento.
O padrão identificado na turma
À medida que a semana avançava, um padrão se tornava visível na turma como um todo. Os participantes conheciam frameworks. Tinham PMP, algumas certificações ágeis, alguns MSP. Tinham dominado a linguagem dos métodos. O que não haviam desenvolvido — e o que a formação padrão raramente oferece — é a capacidade de conduzir uma conversa estratégica com o CFO sobre o valor do portfólio.
Não se trata de apresentar dashboards. Trata-se de entrar numa sala com a liderança sênior e responder, com precisão, à pergunta que importa: qual é o retorno que este portfólio está gerando, e como ele se compara com as alternativas de alocação de capital disponíveis?
O PMI Pulse de 2024 é específico sobre isso: a lacuna mais crítica em PMOs de alto nível não é técnica. É a tradução de portfólio em linguagem financeira que a liderança usa para tomar decisões de investimento. PMO que não consegue fazer essa tradução é percebido como operacional. PMO que consegue é percebido como estratégico.
A diferença de percepção tem consequências diretas: orçamento, acesso a decisões de alto nível, e capacidade de influenciar o portfólio antes de os projetos já estarem em execução.
Nenhum dos participantes havia chegado ao programa com esse gap declarado. Mas ao longo das discussões, ele apareceu com consistência suficiente para se tornar o fio estrutural de toda a segunda metade do programa.
O que passei a enfatizar
Ensinar força destilação. Com executivos que têm quinze ou vinte anos de experiência, não há espaço para teoria desconectada de aplicação. A tolerância para abstração sem ancoragem é zero. Isso não é uma crítica ao público — é uma calibração necessária para qualquer facilitador que trabalhe com esse nível de seniority.
A pergunta que passou a estruturar o programa, a partir da segunda turma planejada, é simples e difícil ao mesmo tempo: “qual valor o PMO está gerando para o negócio que não existiria sem ele?” Não processos, não relatórios, não templates, não auditorias de conformidade. Valor que o negócio não produziria se o PMO não existisse.
Essa pergunta é desconfortável porque a resposta honesta, em muitas organizações, é que o PMO gera valor difuso — e valor difuso não se defende em reunião de board. O PMO que não consegue responder a essa pergunta com precisão é o PMO que, no próximo ciclo de redução de custos, vai ser o primeiro candidato ao corte.
Ram Charan e Larry Bossidy, em Execution (2002), argumentam que o gap entre estratégia e resultado raramente é um problema de formulação estratégica — é um problema de disciplina operacional. A estratégia existe. A intenção é legítima. O que falta é o sistema que garante que as decisões do dia a dia estão alinhadas com a direção declarada. O PMO é, ou deveria ser, o lugar onde essa disciplina vive na organização.
Quando o PMO não cumpre essa função — quando se torna um sistema de reporte que não influencia decisões — a estratégia permanece como declaração de intenção. O gap que Charan e Bossidy descrevem no nível organizacional é exatamente o gap que aparecia nas histórias dos participantes da turma da CSUN.
A disciplina da execução começa por aqui: no sistema de decisão que governa o portfólio, não nos processos que acompanham projetos individuais.
A disciplina da execução começa por aqui — não no processo, não na ferramenta, mas no sistema de decisão que determina o que entra, o que continua e o que sai do portfólio.
O que o programa da CSUN cobre — e onde vai além do padrão
O programa Advanced Topics in PMO Governance na CSUN não é um curso de preparação para certificação. Não há simulado de PMP, não há revisão de PMBOK. O pressuposto é que os participantes já dominam a base metodológica — o programa parte daí.
O que o currículo aborda de forma aprofundada são as questões que aparecem depois da implementação: como estruturar critérios de priorização que a liderança sênior realmente use, como sustentar a relevância do PMO numa conversa de board, como desenhar um sistema de governança de portfólio que funcione quando há múltiplos stakeholders com interesses divergentes, e como desenvolver a capacidade de recomendar descontinuações com base em análise estratégica — não em preferência política interna.
A dimensão americana do programa não é decorativa. Trabalhar com executivos de outros países, em inglês, com referências culturais distintas, é em si um desenvolvimento de competência. O gerente de projetos brasileiro que só operou em contextos nacionais tem um ponto cego específico: assume que os padrões de comunicação, tomada de decisão e relação com a hierarquia que funcionam no Brasil são universais. Não são.
O programa na CSUN força essa calibração de forma prática — não por meio de aulas teóricas sobre cross-cultural management, mas pelo contato direto com participantes de outros contextos, durante uma semana intensa de imersão.
O que ensinando muda em quem ensina
Cada turma obriga a rever o que se pensa que se sabe. Não de forma genérica — de forma específica. A primeira turma na CSUN mudou a minha compreensão sobre onde o gap real de governança de PMO está em organizações que operam com padrão internacional.
Antes da turma, eu teria dito que o problema principal de PMOs de alto nível é a falta de maturidade em gestão de risco. Depois da turma, eu diria que o problema mais crítico é a ausência de critério explícito para descontinuação de projetos — e tudo que isso implica para a qualidade do sistema de decisão de portfólio.
Essa calibração não teria acontecido em sala de aula como participante. Aconteceu porque ensinar força a escutar de forma diferente. A pergunta do executivo com vinte anos de experiência é mais reveladora do que qualquer estudo de caso, porque ela vem de um problema real, com stakes reais, numa organização real.
O programa na CSUN é, da minha perspectiva, uma das formas mais eficientes de desenvolver esse tipo de compreensão — tanto para quem participa quanto para quem facilita.
Para quem é o programa
O perfil que mais aproveita o programa na CSUN é o do profissional com PMO já estabelecido que precisa elevar a conversa de operacional para estratégico. Profissionais que estão implantando seu primeiro PMO encontrarão mais valor em programas introdutórios — não porque o currículo seja inacessível, mas porque as discussões partem de problemas que surgem depois da implantação.
O pré-requisito informal é simples: ter enfrentado ao menos uma vez a pergunta “para que serve o PMO?” vinda de alguém com poder real sobre o orçamento da área. Quem já recebeu essa pergunta sabe que a resposta correta não está em nenhum template de apresentação. Está na capacidade de articular valor em linguagem que a liderança usa — e de sustentar essa articulação sob questionamento.
O programa trabalha exatamente isso.
Limitações
Este artigo reflete a experiência de uma turma específica — julho de 2025, com uma composição particular de participantes. Turmas variam em perfil, em senioridade e nos problemas que trazem para discussão. Os padrões descritos são observações de campo, não resultados de pesquisa sistemática sobre efetividade de PMOs.
Para dados quantitativos sobre maturidade e efetividade de PMOs, a referência mais completa continua sendo o PMI Pulse of the Profession — disponível em pmi.org. O programa usa o Pulse como fonte primária, mas as conclusões do artigo são minhas.
O programa acontece inteiramente em inglês. Participantes com inglês funcional mas limitado devem planejar preparação prévia — não porque o conteúdo seja inacessível, mas porque a qualidade da participação nas discussões depende diretamente da capacidade de articular argumentos complexos em inglês sob pressão de tempo.
Leia também: o programa Advanced Topics in PMO Governance na CSUN — guia completo · o que o mercado americano ensina sobre PMO · MBA vs executive education para executivos seniores
O programa Advanced Topics in PMO Governance acontece em julho na California State University Northridge (CSUN), em parceria com a IBS Americas. Bolsas de até 60% disponíveis para profissionais qualificados.
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Mario H. Trentim é keynote speaker e membro do Board of Directors do PMI Global (2025–2027). Doutorando em Engenharia Aeronáutica e Mecânica no ITA, autor de 13 livros e Academic Leader dos programas de gestão na CSUN e SUNY. trentim.com


